Experiências de Pesquisa Interdisciplinar: caminhos e alternativas para fenômenos complexos


Categoria: Acadêmico

Há três anos às voltas com as questões epistemológicas, conceituais e técnicas sobre a interdisciplinaridade, nos propomos com esse livro enfrentar uma pergunta ao mesmo tempo simples e complexa: como pesquisar interdisciplinarmente? Envolvidos num desafio institucional para construção de um programa stricto sensu interdisciplinar – em uma instituição de ensino privada, no nordeste e num dos estados brasileiros com os mais complexos fenômenos sociais como laboratório – surge a inspiração para esse livro que tenta apresentar “caminhos” com o aprendizado desse desafio e a experiência dos autores. Independente de já flertarmos com a interdisciplinaridade pelos motivos mais diversos possíveis antes de nos conhecermos, a nossa principal dúvida era a mesma: como entender e explicar a interdisciplinaridade como método? A resposta se inicia com o retorno aos clássicos Weber e Durkheim, que ao pensarem/proporem uma ciência disciplinar que estudasse os novíssimos fenômenos sociais do século XIX concordavam sobre a necessidade de conectar objeto científico e metodologia.

A interdisciplinaridade não é nenhuma novidade, se pararmos para pensar nas fundações das disciplinas científicas ao longo do século XIX e XX. Como exemplos, podemos citar William James (1991) e seus estudos sobre as variedades da experiência religiosa, na Psicologia, Georgescu-Roegen (1971) e a incorporação da condição biofísica no estudo da Economia e do desenvolvimento econômico ou E. P. Odum (2013) que trouxe ao campo da Ecologia as contribuições da Economia Ecológica sobre bens e serviços ambientais não negociáveis de Herman Daly. Todos estes autores, em maior ou menor sentido, se debruçaram sobre a necessidade de avançar suas reflexões para além do campo disciplinar que os abastecia intelectualmente. E embora possamos afirmar que a interdisciplinaridade não é nenhuma novidade, ela também não foi uma prioridade de agenda para os diversos campos disciplinares já desenvolvidos e, muito menos, em desenvolvimento, ansiosos por estabelecerem seu próprio corpus e identidade científica.

A riqueza da interdisciplinaridade ultrapassa a perspectiva teórica, epistemológica, metodológica ou didática. Quanto a isso há uma certa convergência entre os autores que escrevem sobre a temática, e que também convergem na compreensão de que sua prática proporciona o diálogo, a interlocução e a cooperação, o que só funciona quando há ação conjunta de pessoas que decidem mudar de postura em relação ao conhecimento (FAZENDA, 2002; BICUDO,2008; POMBO, 2006; MARANHÃO, 2010; REBOUÇAS, MARQUES, BADIRU,2015). Pombo (2006, p.224-225) chama a atenção “(…) que é ao nível da produção em regime interdisciplinar dos diferentes conhecimentos científicos que a interdisciplinaridade verdadeiramente se joga”. Ou seja, a pesquisa interdisciplinar existe como prática e assim sendo há dificuldades para se definir/conceituar a pesquisa interdisciplinar: ela é mais processo do que produto como salienta Fazenda (2002). Além disso, refletir sobre a pesquisa interdisciplinar vai além de uma preocupação exclusivamente epistemológica, pois mesmo partindo-se da compreensão que as disciplinas são insuficientes: “(…) é preciso superar a especialidade que constitui certo encastelamento do saber e da apropriação/poder que essa especialidade proporciona” (REBOUÇAS, MARQUES, BADIRU, 2015, p.108).

Isto complexifica a abordagem interdisciplinar já que os “especialistas” necessitam das especialidades do “outro”, e isso exige a construção coletiva de novos caminhos e explicações: agora não mais sobre partes, mas sobre o todo. Isso “(…) possibilita uma evolução da aplicação de conceitos e métodos de diferentes áreas” e culmina com resultados que não se encaixam “perfeitamente em nenhuma delas” (MARANHÃO, 2010, p.563). A interdisciplinaridade se constrói assim, enquanto pesquisa em ação. As razões da interdisciplinaridade também apontam para o objetivo de que: os compromissos do saber e do conhecimento se refletem em nossas ações, nossos desejos, nossos amores, e vão para além de uma verdade objetiva, de uma técnica apurada, de uma proporção descoberta com a constituição daquilo que somos. (REBOUÇAS, MARQUES, BADIRU, 2015, p.108). Observa-se que as ciências sociais se destacam nas práticas de construção do conhecimento interdisciplinar, especialmente porque oferecem teorias e métodos de análises diferentes que permitem a compreensão de questões não apenas objetivas mas também questões subjetivas da realidade: como discute Maranhão (2010, p.576-577), “(…) o principal desafio consiste nos modos de relacionamento e de ação coletiva, que envolvem coordenação, cooperação e confiança entre cientista de diferentes áreas na resolução de problemas complexos que compartilham” Como pontual Rubin-Oliveira e Franco(2015), é possível identificar que “a solução de problemas cada vez mais complexos passa necessariamente pela diversificação de iniciativas e das formas de pensar e de agir, principalmente no que tange à produção do conhecimento científico”. (RUBIN-OLIVEIRA, FRANCO, 2015, p.18)

Um outro aspecto importante e necessário sobre o qual refletir quando se faz pesquisa interdisciplinar refere-se ao que Maranhão (2010) chama de controle de qualidade. Significa dizer que além da avaliação feita pelos pares há critérios adicionais para a pesquisa interdisciplinar: ela é demandada por interesses econômicos, sociais, materiais e de sobrevivência e nesse sentido está atrelada também a interesses políticos. Isso porque a necessidade de encontrar respostas e caminhos que não são acessados por disciplinas isoladas exige que os pesquisadores encontrem caminhos para explicação de fenômenos complexos e interdependentes. Mas sendo o objeto interdisciplinar, esse objeto científico que desde a segunda metade do século XX se apresenta como grande desafio também para o século XXI, e permeado por diferentes campos, como ir além das lógicas disciplinares para compreensão sobre como pesquisar interdisciplinarmente? Partimos das provocações feitas por Japiassu (1976), Fazenda (2002), Pombo (2006) e Bicudo (2008) que assumem a interdisciplinaridade como uma novíssima concepção de conhecimento. Para Bicudo (2008) em especial, a interdisciplinaridade, além de ter um objeto multifacetado (fenômenos complexos que as disciplinas sozinhas não conseguem dar conta) exige práticas específicas, em especial a imersão no cotidiano onde os fenômenos complexos se constituem, sendo essa imersão sustentada nos princípios de humildade, coerência, espera, respeito e desapego.

Humildade porque, enquanto pesquisadores interdisciplinares, não é possível fazer pesquisa interdisciplinar sozinho; coerência porque, independentemente das abordagens que não cabem nos limites de uma disciplina, sempre é preciso ter um tema como norte da investigação. Espera porque os fenômenos complexos que exigem a interdisciplinaridade estão sempre em construção/transformação, o que exige respeito pelos limites dos pesquisadores envolvidos, suas metodologias específicas e por fim desapego, visto que as respostas não são nunca definitivas e não são nossas, são dos próprios fenômenos que se explicam na medida em que estejamos preparados para identificá-los em sua complexidade, o que exige a interdisciplinaridade para analisá-los. Isso significa admitir que a pesquisa interdisciplinar exige uma abordagem que vá além dos limites de uma ou mais disciplinas, que force seus limites e não se adeque ao próprios métodos, mas que seja criteriosa.

O que também exige “( ) condutas diferenciadas dos pesquisadores, quando comparadas com aquelas observadas nos modos de proceder das pesquisas disciplinares (…)”, exige ainda o trabalho em equipe e“(…) que se respeite o outro, que se trate o conhecimento como atividade e não como mercadoria, que se tenha humildade para ouvir o outro e para expor perguntas e dúvidas ingênuas” (BICUDO, 2008, p.145 e 146). É nesse sentido e como um exercício de reflexão e de abertura para validações e críticas que propomos nesse livro os “caminhos” metodológicos interdisciplinares que usamos com reflexão e como prática nas nossas pesquisas interdisciplinares nos últimos anos. Assim, apresentamos quatro capítulos que revelam caminhos teóricos e caminhos práticos de pesquisa interdisciplinar do campo das Ciências Humanas e Sociais e que indicam como o campo interdisciplinar é rico e está sempre em (des) contrução e (tras) formação. No primeiro capítulo intitulado “Democracia e meio ambiente: o método comparativo e os desafios interdisciplinares” chamamos a atenção sobre as dificuldades operacionais em incorporar as dimensões ambientais e políticas em pesquisas comparativas, em especial sobre como repousa na construção metodológica de índices e indicadores que agreguem, de forma ponderada, os atributos interdependentes de cada categoria, uma das grandes dificuldades atuais em pesquisa que envolvem essa complexidade dos fenômenos ambientais.

Como caminho metodológico apresentado foi usado o desenho do Environmental Performance Index (EPI), uma ferramenta metodológica para a avaliação das políticas públicas ambientais, cujo intuito é quantificar e classificar numericamente o desempenho ambiental das políticas de um país. Esse primeiro capítulo traz como algumas de nossas conclusões que a utilização de índices e indicadores para avaliação de políticas é um recurso otimizador para o pesquisador comparativista e, além disso, permite reflexões sobre como um desenho de pesquisa interdisciplinar que absorva o uso de índices e indicadores de natureza diversa (como índices de desempenho ambiental e qualidade democrática e seus respectivos indicadores) carece de um cuidado necessário em delimitar claramente a pergunta de pesquisa e as variáveis dependente e independente, assim como as variáveis de controle e interveniente de maneira ponderada entre os atributos do objeto de pesquisa. Por fim, ao final do capítulo trazemos um exemplo de projeto de pesquisa que agrega as dimensões ambientais, políticas e econômicas. Buscou-se, nesse sentido, apresentar e comentar o desenho de pesquisa com a descrição das variáveis utilizadas. O segundo capítulo, de natureza teórica, intitulado “Análise do discurso e abordagem comparativa: Compreensão dos populismos na América Latina a partir da perspectiva de Ernest Laclau” faz uma inflexão distinta dos demais que compõem o livro. Demonstra como um fenômeno político de alta complexidade- o populismo- foi enfrentado pelo historiador argentino fundador do Programa de Ideologia e análise de Discurso da Universidade de Essex, Ernest Laclau em sua obra seminal Política e ideologia na Teoria Marxista. Capitalismo, Fascismo e Populismo, publicada no Brasil em 1978.

Neste livro Laclau mobilizou uma série de conhecimentos interdisciplinares, com o auxílio da perspectiva comparativa, para definir esse fenômeno político que até então era tratado por economistas, sociólogos, cientistas políticos, historiadores como efeito perverso da transição das sociedades tradicionais para as modernas, com ênfase nas transformações econômicas. Portanto, a escolha de analisar essa obra de Laclau em especial justifica-se para demonstrar como a perspectiva comparativa pode ser útil para a compreensão de fenômenos complexos e para sua definição conceitual, questões importantes que perpassam qualquer pesquisa de natureza interdisciplinar. Também de cunho teórico, no terceiro capítulo intitulado “Análise de redes sociais e interdisciplinariedade: reflexões preliminares” apresentamos uma discussão sobre a potencialidade da análise de redes sociais para pensá-la, também, como um aporte metodológico interdisciplinar para a compreensão do mundo social, em suas múltiplas e complexas facetas. Na discussão sobre a análise de redes sociais e sua interdisciplinaridade intrínseca o texto está dividido em três partes. Inicialmente são apresentados os termos da análise de redes sociais e seus significados, de forma que em seguida são expostos alguns métodos e algumas formas de representação gráfica, o que permite finalizarmos com os diversos usos possibilitados pela análise de redes sociais que ultrapassam campos disciplinares. Concluímos nesse capítulo que estas múltiplas e complexas relações entre atores, instituições, organizações, atualmente, podem ser melhor visualizados e analisados a partir de softwares desenvolvidos com este objetivo.

Por fim, com uma discussão prática baseada em pesquisas empíricas temos o capítulo intitulado “Segurança pública: abordagens interdisciplinares para compreensão da violência e homicídios” no qual apresentamos, a partir da realização de pesquisas realizadas pelos autores, caminhos encontrados para compreensão dos fenômenos complexos que envolvem o aumento exponencial dos últimos anos dos índices de violência, homicídios e encarceramento. Essas pesquisas, demandadas pelo Estado, tinham como objetivo subsidiar gestores públicos na compreensão do problema investigado, o que foi possível realizar adotando-se abordagens interdisciplinares de investigação. Parte da compreensão que a pesquisa interdisciplinar exige não apenas o trabalho em equipe, mas especialmente, a interlocução com os atores envolvidos diretamente com a violência e a gestão de segurança pública têm sido salutares nas pesquisas desenvolvidas nessa área. Democracia, Meio Ambiente, Economia, Segurança Pública, não importa o tema da agenda de pesquisa e o campo disciplinar mais tradicional que o investiga, a interação entre os saberes e metodologias disciplinares pode acontecer em níveis de complexidade diferentes, mas devem sempre partir de uma articulação coordenada e voluntária de ações disciplinares que estão orientadas por um objetivo comum, o que vai além de exigências provisórias e ocasionalidades. A interdisciplinaridade, podemos atestar, se constrói na prática investigativa.

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